Termotécnica Para-raios

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No dicionário encontrei uma boa definição para a palavra enganação: É um ato ou declaração que oculta a verdade ou promove uma crença, conceito ou ideia que não é verdadeira. Geralmente, é feito para ganho ou vantagem pessoal. A decepção pode envolver dissimulação, propaganda e prestidigitação, bem como distração ou camuflagem.

Ao navegar pela internet, se ficarmos atentos, notaremos as inúmeras “armadilhas” que existem no mercado para iludir os mais desavisados. Desde cartões magnéticos com nanotecnologia para economizar energia, receitas milagrosas para reduzir peso, passo a passo para ficar rico em pouquíssimo tempo e etc.

Sem dúvidas, o ser humano sempre foi fascinado por tentar controlar o que, definitivamente, não pode ser controlado. Por exemplo, não é de hoje que existem no mercado brasileiro diversos para-raios que se propõem a fazer o impossível e manipular a natureza. No geral, esses dispositivos milagrosos se dividem em duas classes:

  • Aqueles que dizem atrair os raios para si (ESE-Early Streamer Emission).
  • Aqueles que dizem evitar que os raios caiam (CTS ou PDI).

Não é necessário ser um Engenheiro para saber que a natureza é imprevisível e incontrolável. Imaginar que um dispositivo possa interferir em um fenômeno como os raios é uma completa ilusão.

Em qualquer evento como este, o homem apenas consegue apreciar ou agir preventivamente, jamais interferir no processo. Isso vale para tempestades, tornados, terremotos, tsunamis, vulcões, enchentes, clima e etc.

Sendo assim, a função da Engenharia é analisar e prover procedimentos para minimizar os efeitos causados. Na proteção contra descargas atmosféricas não é diferente. São estabelecidos procedimentos e regulamentações para garantir a segurança de pessoas, proteger edificações e patrimônio.

Apesar de tudo isso, ainda assim nos deparamos com aventureiros no mercado. Pessoas mal intencionadas ou mal informadas (muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo), com interesses escusos, que se aproveitam para lucrar com soluções que prometem resultados milagrosos.

Mentiras difundidas por quem comercializa estes para-raios

  • O dispositivo tem tecnologia para atrair o raio ou impedir que ele caia.

Não existe nenhuma comprovação científica que isto seja possível. Ao contrário do que é dito, os mais renomados cientistas internacionais já declararam a ineficiência deste tipo de para-raio, em inúmeras ocasiões. Ademais, entidades nacionais idôneas, como UFMG e USP também não validam este dispositivo.

  • O para-raio milagroso está de acordo com a NBR 5419.

Basta verificar o que a norma fala sobre esse assunto, para ter a certeza de que este argumento é falso. Veja o trecho publicado na NBR 5419/2015, parte 3, item 5.2.1:

Esta Norma somente especifica os métodos de captação citados nesta seção. Recursos artificiais destinados a aumentar o raio de proteção dos captores ou inibir a ocorrência das descargas atmosféricas, não são contemplados nesta Norma.

  • É um dispositivo certificado por normas internacionais.

Fica ainda mais clara a tentativa de enganar, ao passo que se aproveitam do possível entendimento confuso do que são normas estrangeiras e o que são normas internacionais.

A IEC, que é a norma internacional mais respeitada na Engenharia, não aceita esse tipo de produto, exatamente por não ter comprovação técnica e científica. O que existem são documentos, na França e Portugal, feitos pelos próprios fabricantes dessas soluções, que pressionam os governos locais para aprovar esse para-raio.

Também é importante estar ciente da diferença entre certificado de produto e certificado de eficiência. De nada adianta um documento que ateste a existência de um produto, mas que não comprove de forma técnica e científica o seu funcionamento.

  • Está instalado na NASA ou em outras grandes empresas, por isso funciona.

São utilizados todos os artifícios possíveis para tentar convencer os possíveis compradores. Use o seu discernimento e consulte seus grupos de relacionamento técnico antes de tomar uma decisão da qual você venha a se arrepender.

  • É aceito pelo Corpo de Bombeiros de São Paulo.

O máximo que conseguiram desta entidade idônea foi a permissão de uso, contanto que o sistema atendesse plenamente a NBR 5419. O fato é que depois que a norma é atendida, nada mais é necessário para garantir a proteção, nem mesmo um dispositivo como este.

  • É um sistema muito mais barato do que o recomendado pela NBR 5419.

Seja na construção civil, elétrica, mecânica, hidráulica ou qualquer outra área de conhecimento que possua normas específicas para exercício do serviço, ignorar suas recomendações significa abrir mão da segurança. Portanto, realmente será mais barato priorizar o dinheiro ao invés da eficiência e proteção das pessoas.

  • No Brasil, ainda será desenvolvida uma norma técnica sobre proteção contra raios utilizando esta “tecnologia”.

A NBR 5419 da ABNT, que tem como base a norma internacional IEC 62305, é a regulamentadora de todos os sistemas de proteção contra descargas atmosféricas no Brasil.

Assim como não existem normas para cabos e fios “comerciais”, disjuntores, hastes de baixa camada e demais itens que são apontados como ineficientes por estudos técnicos e científicos, jamais haverá uma norma sobre um dispositivo milagroso como este para-raio oferecido.

O que essas empresas não te falam?

No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor exige que as normas da ABNT sejam seguidas. Em caso de acidente será realizada uma perícia e a instalação será avaliada, à luz da norma NBR 5419. No artigo 39, inciso VIII fica claro que:

VIII – colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro)”.

Caso não atenda à referida norma, quem forneceu (se ainda estiver no mercado) e quem comprou o produto ou serviço irregular poderá ser responsabilizado por utilizar um produto ilegal.

O que podemos concluir com isso?

Para enganar os desavisados, essas empresas estrangeiras utilizam-se de marketing e animações gráficas para convencer os consumidores. Já que não há como comprovar tecnicamente o que a solução promete, apostam em outros recursos, como: discursos persuasivos, imagens que na verdade não se aplicam na prática, declarações falaciosas e os mais sórdidos artifícios possíveis.

Infelizmente (ou não), a verdade é clara e inconvertível: o valor pago para adquirir uma solução como esta pode até ser baixo, mas não representa ganho nenhum ao analisar o preço das consequências pela sua total ineficiência e inconformidade com as regulamentações vigentes!

*Eng. Normando V.B. Alves
Diretor de engenharia da Termotécnica Para raios.
Membro ativo da comissão que revisa a norma NBR 5419 desde 1990

*Orestes Rodrigues Junior
Membro da comissão NBR 5419
Diretor de Marketing da Abracopel

Não seja enganado: Evite os para-raios ESE e CTS

2 comentários em “Não seja enganado: Evite os para-raios ESE e CTS

  1. No país Brasil, que depende de pesquisas e tecnologias estrangeiras; basta ver às próprias NORMAS que dependem e utilizam de “traduções” das IECs, não podemos radicalizar ou satanizar estudos e pesquisas técnico-científicas de instituições conceituadas, mesmo internacionais. Tem gente que não acredita que o homem está com equipamentos em Marte. Normas são instruções, conceituais adotadas por uma comunidade que adotam cumpri-las, mas que são democraticamente revisadas, corrigidas e substituídas por novos conceitos e tecnologias. Podemos dizer que os sistemas ESE e outros, estão em pesquisas e verificação de ratificação de otimização, mas não demonizá-los, porque não tem o selo de normalização.

    1. José,

      De fato devemos estar abertos a novas tecnologias e conceitos, pois estes trazem melhorias e avanços para sociedade. Entretanto, não é novidade o conceito de ESE, que existem a mais de 30 anos no mercado. Até hoje sua eficácia não pode ser comprovada em campo, onde os parâmetros não são tão controlados quanto em laboratório. As únicas normativas que os adotam são normas de alguns países específicos (que não podem ser consideradas como normas internacionais) e, mesmo nestas, existem dezenas de restrições quanto ao seu uso, como a proibição em prédios públicos, por exemplo.

      É preciso também entender que captar o raio é a parte mais simples de todo o processo e, para tal, um captor comum que é milhares de vezes mais barato é o suficiente. A grande dificuldade do sistema é conduzir e dissipar suas correntes no solo, sem causar danos aos seres vivos no interior da edificação e em sua proximidade. Nesta parte os ESE’s deixam a desejar, uma vez que a maioria destes possuem instalações simplificadas de descidas e aterramento, que são comprovadas como ineficazes cientificamente.

      Ouça nosso TelCast sobre esse assunto e você mudará sua opinião sobre os ESE’s: https://tel.com.br/podcast/evite-captores-ese/

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